
SOBRE " A COMUNA DE
PARIS"
Karl Marx e Friedrich Engels – 1871
"Na alvorada de 18 de Março (1871), Paris foi despertada por este
grito de trovão: VIVE LA COMMUNE! O que é pois a Comuna, essa esfinge que põe tão
duramente à prova o entendimento burguês?
Mas a classe operária não se pode contentar com tomar o aparelho de Estado
tal como ele é e de o pôr a funcionar por sua própria conta.
O poder centralizado do Estado, com os seus órgãos presentes por toda a parte:
exército permanente, polícia, burocracia, clero e magistratura, órgãos moldados
segundo um plano de divisão sistemática e hierárquica do trabalho, data da
época da monarquia absoluta, em que servia à sociedade burguesa nascente de
arma poderosa nas suas lutas contra o feudalismo."
"Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe
possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente,
como o engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho. Na sua cruzada
permanente contra as massas dos produtores, foi forçada não só a investir o
executivo de poderes de repressão cada vez maiores, mas também a retirar pouco
a pouco à sua própria fortaleza parlamentar, a Assembleia Nacional, todos os
meios de defesa contra o executivo."
"O poder de Estado, que parecia planar bem acima da sociedade, era
todavia, ele próprio, o maior escândalo desta sociedade e, ao mesmo tempo, o
foco de todas as corrupções."
"O primeiro decreto da Comuna foi pois a supressão do exército
permanente e a sua substituição pelo povo em armas.
A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por sufrágio
universal nos diversos bairros da cidade. Eram responsáveis e revogáveis a todo
o momento. A maioria dos seus membros eram naturalmente operários ou
representantes reconhecidos da classe operária. A Comuna devia ser, não um
organismo parlamentar, mas um corpo activo, ao mesmo tempo executivo e
legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do governo central, a
polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos políticos e transformada
num instrumento da Comuna, responsável e revogável a todo o momento. O mesmo se
deu com os outros funcionários de todos os outros ramos da administração. Desde
os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função pública devia ser
assegurada com salários de operários."
" Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do
poder material do antigo governo, a Comuna teve como objectivo quebrar o
instrumento espiritual da opressão, o "poder dos padres"; decretou a
dissolução e a expropriação de todas as igrejas, na medida em que elas
constituíam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro
da vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus
predecessores, os apóstolos. Todos os estabelecimentos de ensino foram abertos
ao povo gratuitamente e, ao mesmo tempo, desembaraçados de toda a ingerência da
Igreja e do Estado. Assim, não só a instrução se tornava acessível a todos,
como a própria ciência era libertada das grilhetas com que os preconceitos de
classe e o poder governamental a tinham acorrentado.
Os funcionários da justiça foram despojados dessa fingida independência que não
servira senão para dissimular a sua vil submissão a todos os governos sucessivos,
aos quais, um após outro, haviam prestado juramento de fidelidade, para em
seguida os violar. Assim como o resto dos funcionários públicos, os magistrados
e os juizes deviam ser eleitos, responsáveis e revogáveis."
"Após uma luta heróica de cinco dias, os operários foram esmagados.
Fez-se então, entre os prisioneiros sem defesa, um massacre como se não tinha
visto desde os dias das guerras civis que prepararam a queda da República
romana. Pela primeira vez, a burguesia mostrava a que louca crueldade vingativa
podia chegar quando o proletariado ousa afrontá-la, como classe à parte, com os
seus próprios interesses e as suas próprias reivindicações. E, no entanto, 1848
não passou de um jogo de crianças, comparado com a raiva da burguesia em
1871."
"Proudhon, o socialista do pequeno campesinato e do artesanato, odiava
positivamente a associação. Dizia dela que comportava mais inconvenientes do
que vantagens, que era estéril por natureza e até mesmo prejudicial, pois
entravava a liberdade do trabalhador; dogma puro e simples... E é também por
isso que a Comuna foi o túmulo da escola proudhoniana do socialismo."
"As coisas não correram melhor aos blanquistas. Educados na escola da
conspiração, ligados pela estrita disciplina que lhe é própria, partiam da
ideia de que um número relativamente pequeno de homens resolutos e bem
organizados era capaz, chegado o momento, não só de se apoderar do poder, mas
também, desenvolvendo uma grande energia e audácia, de se manter nele durante
um tempo suficientemente longo para conseguir arrastar a massa do povo para a
Revolução e reuni-la à volta do pequeno grupo dirigente. Para isso era preciso,
antes de mais nada, a mais estrita centralização ditatorial de todo o poder
entre as mãos do novo governo revolucionário. E que fez a Comuna que, em
maioria, se compunha precisamente de blanquistas? Em todas as suas proclamações
aos franceses da província, convidava-os a uma livre federação de todas as
comunas francesas com Paris, a uma organização nacional que, pela primeira vez,
devia ser efectivamente criada pela própria nação. Quanto à força repressiva do
governo outrora centralizado, o exército, a polícia política, a burocracia,
criada por Napoleão em 1798, retomada depois com prontidão por cada novo
governo e utilizada por ele contra os seus adversários, era justamente esta
força que devia ser destruída por toda a parte, como o fora já em Paris."
"Para evitar esta transformação, inevitável em todos os regimes
anteriores, do Estado e dos órgãos do Estado em senhores da sociedade, quando
na origem eram seus servidores, a Comuna empregou dois meios infalíveis.
Primeiro, submeteu todos os lugares, da administração, da justiça e do ensino,
à escolha dos interessados através de eleição por sufrágio universal e,
evidentemente, à revogação, em qualquer momento, por esses mesmos interessados.
E segundo, retribuiu todos os serviços, dos mais baixos aos mais elevados, pelo
mesmo salário que recebiam os outros operários. O vencimento mais alto que
pagou foi de 6000 francos. Assim, punha-se termo à caça aos lugares e ao
arrivismo, sem falar da decisão suplementar de impor mandatos imperativos aos
delegados aos corpos representativos.
Esta destruição do poder de Estado, tal como fora até então, e a sua
substituição por um poder novo, verdadeiramente democrático, estão
detalhadamente descritas na terceira parte de A Guerra Civil.(Karl Marx) Mas
era necessário voltar a referir aqui brevemente alguns dos seus traços, porque,
precisamente na Alemanha, a superstição do Estado passou da filosofia para a consciência
comum da burguesia e mesmo de muitos operários. Na concepção dos filósofos, o
Estado é "a realização da Ideia" ou o reino de Deus na terra
traduzido em linguagem filosófica, o domínio onde a verdade e a justiça eternas
se realizam ou devem realizar-se. Daí esta veneração que se instala tanto mais
facilmente quanto, logo desde o berço, fomos habituados a pensar que todos os
assuntos e todos os interesses comuns da sociedade inteira não podem ser
tratados senão como o foram até aqui, quer dizer, pelo Estado e pelas suas
autoridades devidamente estabelecidas. E julga-se que já se deu um passo
prodigiosamente ousado ao libertarmo-nos da fé na monarquia hereditária e ao
jurarmos pela república democrática."
(FRIEDRICH ENGELS: Introdução á Guerra Civil em França )
"Em presença de ameaça de sublevação do proletariado, a classe
possidente unida utilizou então o poder de Estado, aberta e ostensivamente,
como engenho de guerra nacional do capital contra o trabalho"
"A constituição comunal restituiria ao corpo social todas as forças
até então absorvidas pelo Estado parasita que se alimenta da sociedade e lhe
paralisa o livre movimento"
"A unidade da nação não deveria ser quebrada, mas, pelo contrário
organizada pela Constituição comunal; ela deveria tornar-se uma realidade pela
destruição do poder de Estado que pretendia ser a encarnação desta unidade mas
que queria ser independentemente desta mesma nação e superior a ela, quando não
era mais do que uma sua excrescência parasitária."
"Em vez de se decidir de três em três, ou de seis em seis anos, qual o
membro da classe dirigente que deveria "representar" e calcar aos pés
o povo no Parlamento, o sufrágio universal devia servir um povo constituído em
comunas, tal como o sufrágio individual serve qualquer patrão à procura de
operários, de capatazes ou de contabilistas para a sua empresa."
"A Comuna era composta por conselheiros municipais, eleitos por
sufrágio universal nos diversos bairros da cidade. A maioria dos seus membros
eram naturalmente operários ou representantes reconhecidos da classe operária.
A Comuna devia ser, não um organismo parlamentar, mas um corpo activo, ao mesmo
tempo executivo e legislativo. Em vez de continuar a ser o instrumento do
governo central, a polícia foi imediatamente despojada dos seus atributos
políticos e transformada num instrumento da Comuna, responsável e revogável a
todo o momento. O mesmo se deu com os outros funcionários de todos os ramos da
administração. Desde os membros da Comuna até ao fundo da escala, a função
pública devia ser assegurada com salários de operários. Os benefícios habituais
e os emolumentos de representação dos altos dignatários do Estado desapareceram
ao mesmo tempo que os altos dignatários. Os serviços públicos deixaram de ser
propriedade privada das criaturas do governo central. Não só a administração
municipal, mas toda a iniciativa até então exercida pelo Estado, foi posta nas
mãos da Comuna."
"Uma vez abolidos o exército permanente e a polícia, instrumentos do
poder material do antigo governo, a Comuna teve como objectivo quebrar o
instrumento espiritual da opressão, o "poder dos padres"; decretou a
dissolução e a expropriação de todas as igrejas, na medida em que elas
constituíam corpos possidentes. Os padres foram remetidos para o calmo retiro
da sua vida privada, onde viveriam das esmolas dos fiéis, à semelhança dos seus
predecessores, os apóstolos."
"A Comuna realizou a palavra de ordem de todas as revoluções
burguesas, um governo barato, abolindo essas duas grandes fontes de despesas
que são o exército permanente e o funcionalismo de Estado."
"A supremacia política do produtor não pode coexistir com a
eternização da sua escravatura social. A Comuna devia pois servir de alavanca
para derrubar as bases económicas em que se fundamenta a existência das classes
e, por conseguinte, a dominação de classe. Uma vez emancipado o trabalho, todo
o homem se torna um trabalhador e o trabalho produtivo deixa de ser o atributo
de uma classe."
"A Comuna tinha perfeitamente razão ao dizer aos camponeses: "A
nossa vitória é a vossa única esperança".
"O domínio de classe já não se pode esconder sob um uniforme nacional,
pois os governos nacionais formam um todo unido contra o proletariado."
A Paris operária, com a sua Comuna, será para sempre celebrada como a
gloriosa percursora de uma sociedade nova. A recordação dos seus mártires
conserva-se piedosamente no grande coração da classe operária. Quanto aos seus
exterminadores, a História já os pregou a um pelourinho eterno, e todas as
orações dos seus padres não conseguirão resgatá-los.
Karl Marx (Guerra Civil em França - 30 de Maio de 1871)