RESOLUÇÃO SOBRE
A SITUAÇÃO POLÍTICA ACTUAL
E AS NOSSAS TAREFAS
I
A situação
política no mundo actual caracteriza-se por uma agudização extrema das
contradições entre os povos e nações oprimidas e os Estados imperialistas e
seus satélites, entre a classe operária e a burguesia industrial e financeira
internacional, e dentro do próprio sistema dos monopólios e dos Estados
imperialistas.
A mola real da
presente crise e da agudização das contradições acima referida, reside nas
próprias leis internas do sistema de produção capitalista, na sua tendência
inelutável para a sobre acumulação de capital e para a sua concentração num
número cada vez mais reduzido de grandes grupos monopolistas a nível mundial,
enquanto que no outro pólo do sistema, o do Trabalho, se acumula o desemprego,
os baixos salários, a sobre exploração, a fome e a miséria.
Na sua busca
incessante de novos mercados onde investir, onde conseguir matérias-primas e
trabalho qualificado e para onde escoar a produção, os grupos monopolistas
entram numa competição desenfreada entre si, servindo-se dos Estados e dos
governos onde têm a sua base e onde têm negócios, ao mesmo tempo que se põem de
acordo na compressão máxima dos salários dos trabalhadores, na expansão também
máxima dos tempos e dos ritmos de trabalho e na constituição de um imenso
exército industrial de reserva, a nível mundial, com isto agravando ainda mais
as condições de realização da mais-valia produzida e o excesso de capacidade
produtiva não utilizada.
No capitalismo
global dos nossos dias, todos os avanços da ciência e da técnica, todos os
recursos naturais, materiais e humanos e todos os chamados “bens públicos”,
desde a saúde e a educação até ao solo que pisamos, ao espaço que observamos, à
água que bebemos e até ao ar que respiramos, são postos ao serviço da
acumulação capitalista. As prestações sociais e os serviços públicos, pagos com
o dinheiro dos impostos sobre o Trabalho, vão sendo paulatinamente suprimidos e
os correspondentes recursos financeiros directamente canalizados para os
grandes grupos económicos multinacionais, os quais vão depois vender, a peso de
ouro, o substituto daquelas prestações sociais e daqueles serviços, entretanto
privatizados, a quem já os pagou através dos impostos e das contribuições
sociais.
A extensão das
relações de produção capitalistas a todas as áreas da vida social, com a
consequente e progressiva redução do Estado às suas funções de policiamento e
repressão, e a concentração da actividade capitalista mais lucrativa nos
sectores de utilização intensiva das chamadas “novas tecnologias de informação
e comunicação”, são factores que conduzem à rápida proletarização de vastos
sectores da pequena burguesia e à sua constituição como trabalhadores
produtores de mais-valia. O proletariado industrial das grandes unidades de
produção continua sem dúvida a ser o sector mais revolucionário das sociedades
e aquele em que se deve assentar a organização comunista dos trabalhadores, mas
a referida proletarização dos trabalhadores dos serviços faz desta camada de classe
um aliado natural da classe operária que um partido comunista tem de saber
organizar, sob pena de abdicar de um pilar fundamental do movimento
revolucionário das massas no mundo actual.
Armados até aos
dentes, os Estados imperialistas fomentam e protegem o saque desenfreado das
riquezas, dos recursos e da mais-valia produzida pelos trabalhadores de todo o
mundo, desencadeando permanentemente criminosas guerras de agressão. À cabeça
de todos eles está o imperialismo norte-americano, o inimigo principal dos
povos e nações oprimidas, devidamente acolitado por outros sub imperialismos,
designadamente os que constituem o directório que governa a União Europeia, e
outros que espreitam a sua oportunidade, como a China, a Índia, a Rússia ou o
Japão.
Unidos sob a
batuta ianque e sob o lema da “guerra ao terrorismo”, os Estados imperialistas
submetem todos os demais às regras do “livre mercado”, que é a liberdade da
grande burguesia internacional e dos seus sócios menores em cada país
explorarem e oprimirem os trabalhadores e os povos em todo o mundo. Ao mesmo
tempo que estão unidos neste propósito, os diversos imperialismos disputam-se
permanente e ferozmente sobre a partilha do saque. Embora a supremacia militar
norte-americana seja de momento indisputada, os factores conducentes a uma nova
guerra mundial imperialista vão-se acumulando, à medida que a crise económica
mundial se aprofunda, que a “corrida aos armamentos” se intensifica e que as
contradições dentro de cada bloco imperialista e entre eles se vão agudizando.
No quadro
descrito, o imperialismo tem de ser combatido como uma hidra com várias
cabeças. Aproveitar as contradições no campo do inimigo e definir uma táctica
para impedir a unificação dos seus ataques contra as forças revolucionárias, é
uma atitude inteiramente correcta e necessária. Mas um partido comunista tem de
combater firmemente quaisquer ilusões nas pretensas virtualidades de alianças
estratégicas com um sector do imperialismo para combater o outro.
As alianças
estratégicas têm de ser estabelecidas no campo da revolução, entre as classes e
camadas de classe revolucionárias em cada sociedade e entre os trabalhadores e
os povos de todo o mundo. A este propósito, e dado que o carácter
“internacionalizado” do sistema de produção capitalista, das suas relações
sociais de produção e da sua gestão pela classe burguesa mundial, se vem
aprofundando notoriamente em relação com épocas passadas, ganha uma importância
redobrada a aliança internacionalista entre os trabalhadores dos diversos
países e regiões do mundo. Assim, qualquer luta que assuma uma dimensão
relevante num quadro nacional, tem imediatas e amplas repercussões
internacionais, sendo que as condições para o seu êxito exigem muitas vezes uma
coordenação estreita e uma direcção unificada, no que diz respeito aos
trabalhadores e sectores envolvidos num plano internacional. O palco
privilegiado da luta de classes continua hoje a ser o plano nacional, e os
governos da burguesia em cada país continuam a ser o inimigo imediato a abater
e o alvo onde, em primeiro lugar, se devem concentrar os ataques dos
trabalhadores. Continua, com efeito, a ser verdade que a primeira e mais
importante tarefa internacionalista do proletariado deve ser a de fazer a
revolução no seu próprio país. Mas dizer só isto não chega, sendo hoje mais
necessário do que nunca valorizar a dimensão internacional das lutas travadas
num quadro nacional e adoptar as correspondentes medidas, no que diz respeito à
estratégia, à táctica e à organização revolucionárias.
O que atrás ficou
dito sobre a importância a conferir à dimensão internacional das lutas, tem uma
aplicação importante no caso da actual União Europeia, onde os mecanismos e
instrumentos do poder da burguesia se vão concentrando numa espécie de “super-estado”
baseado num directório de grandes potências, o qual reduz os países pequenos e
médios a um estatuto de tipo colonial, contando para tal com o apoio e o
beneplácito das próprias classes dominantes dos países subjugados.
Representando um fortalecimento do poder da burguesia, esta concentração de
poder a nível internacional e regional favorece as condições da luta
revolucionária da classe operária e dos trabalhadores, na medida em que agudiza
as contradições do sistema capitalista e imperialista na Europa e reforça a
aliança internacionalista entre os trabalhadores dos diversos países, havendo
que adoptar, com a necessária urgência, as formas organizativas adequadas a
esta nova situação política.
Neste quadro, as
tarefas dos comunistas em cada país e a nível internacional são as de organizar
a resistência e a luta, sem perder de vista que a condição básica para que essa
luta tenha êxito é a do reforço da ideologia do marxismo no seio do movimento
de massas. Como fazer a revolução nas condições actuais - com que ideologia, com
que linha política, com que instrumentos organizativos? Como conservar o poder
e como exercer a ditadura do proletariado, de forma a esmagar a resistência da
burguesia, realizar a transformação socialista das relações de produção e
caminhar para a sociedade sem classes, o comunismo?
Estudar e
divulgar o marxismo e, em particular, estudar a experiência das revoluções
proletárias na parte onde tal não foi ainda realizado com a necessária
profundidade e extensão, fazendo o balanço das suas aquisições, das suas
insuficiências e dos seus fracassos, é um passo imprescindível na mobilização
para o campo da revolução das grandes massas de trabalhadores, que procuram uma
perspectiva de futuro para o seu combate político.
A situação da
luta de classes a nível mundial é hoje particularmente favorável ao
desencadeamento de lutas revolucionárias, as quais vão ocorrendo um pouco por
toda a parte, verificando-se no entanto, na maior parte delas, a ausência de
uma linha política consequente e uma perspectiva unificadora, que só o
marxismo-leninismo, adaptado às condições presentes, lhes pode dar.
Uma visão
objectiva da realidade dos nossos dias não pode deixar de reconhecer que cada
uma das acções e iniciativas políticas relevantes das classes dominantes a
nível global e local tem sempre presente a preocupação de fazer face a um temor
e a um espectro que de novo ganha importância e dimensão crescentes: o temor e
o espectro da revolução proletária. «O terrorismo é o bolchevismo dos nossos
dias», dizia recentemente de uma forma desbocada mas reveladora um dos mata-mouros
da revolução na década de 80, Margareth Thatcher, resumindo assim de maneira
singela a verdadeira natureza e o verdadeiro alvo da «cruzada antiterrorista»
que toda a burguesia, e todos os oportunistas sem excepção, promovem e defendem
de forma aberta ou dissimulada.
Na
verdade, da mesma maneira que o imperialismo é a guerra, significando isto que
sob este sistema político e económico as situações de paz são apenas intervalos
entre duas guerras, também o movimento operário é a revolução socialista,
significando isto que na época do grande capital industrial e financeiro os
períodos de relativo impasse na luta de classes, como é aquele que se vem
vivendo nas últimas décadas, são apenas intervalos entre dois períodos revolucionários.
Também neste domínio o equilíbrio é ilusório e temporário, sendo que as
situações de agudização da luta de classes se regem sempre pela lei que o
marxismo há muito sintetizou e que o nosso Partido desde sempre adoptou como
sua: a revolução avança à medida que cria uma contra-revolução cada vez mais
forte e coesa.
II
A presente
situação interna em Portugal caracteriza-se por uma profunda crise política,
económica e social, de que não se vislumbra saída no quadro político actual.
A sociedade
portuguesa actual é constituída por duas classes antagónicas fundamentais: uma
classe capitalista fortemente minoritária e uma classe de produtores de
mais-valia, que engloba os sectores tradicionais do proletariado da indústria,
das minas, da pesca e agrícola, cujo número tem vindo a descer
significativamente, e que abrange também um sector ainda relativamente pouco
importante dos trabalhadores de serviços, designadamente os que estão
integrados e são peças imprescindíveis das grandes cadeias de produção capitalista,
estando como tal sujeitos a um regime de exploração idêntico ao dos operários
tradicionais. A proletarização deste sector de trabalhadores de serviços ocorre
naturalmente à medida que os chamados «serviços públicos» vão sendo
conquistados para o processo de produção e acumulação capitalista, e que a
forma mercadoria se vai impondo com carácter de exclusividade na actividade
intelectual, cultural e lúdica dos cidadãos.
No que diz
respeito à classe capitalista portuguesa, ela é constituída por dois sectores
principais: o primeiro, está ligado às actividades tradicionais do sector
industrial e pratica uma sobre exploração dos trabalhadores, baseada em
salários muito baixos e na ausência ou forte restrição dos direitos sociais,
sendo um sector em franca diminuição na actualidade, seja pela falência e
encerramento das respectivas unidades de produção, seja pela aquisição dessas
unidades pelo capital estrangeiro; o segundo sector, baseia a sua actividade no
sector financeiro e no comércio de bens e serviços, pratica um regime de forte
diferenciação na remuneração salarial e no reconhecimento de direitos sociais,
e constitui-se progressivamente como um ramo menor de outras classes
capitalistas, a nível europeu e mundial.
Entre a classe
capitalista e a classe dos produtores de mais-valia, encontra-se um sector,
hoje maioritário na sociedade portuguesa, constituído fundamentalmente por uma
pequena burguesia de serviços, cujo processo de proletarização se desenvolve
com rapidez, embora as actividades desenvolvidas pela maioria desses novos
proletários (trabalho temporário, indiferenciado e pouco qualificado), a sua
integração nos serviços do Estado ou a reduzida dimensão das respectivas
unidades de produção, constituam factores não muito propícios a um abandono das
suas posições de classe pequeno burguesas e a um consequente reforço da sua
consciência política, sobretudo numa situação política como a presente,
caracterizada por um relativo atentismo no campo das forças revolucionárias.
Embora as
condições objectivas sejam hoje muito favoráveis ao desenvolvimento da
revolução, o que acontece é que, quer seja por incapacidade das suas
organizações políticas de classe, quer seja devido ao peso ideológico das
posições pequeno burguesas, os trabalhadores portugueses encontram-se presentemente,
como movimento de massas, numa atitude que é sobretudo de resistência defensiva
face aos ataques permanentes de que têm sido alvo por parte da classe
dominante, do seu Estado e dos seus partidos, designadamente os que se auto-intitulam
de «esquerda». Um a um, todos os direitos sociais e políticos dos trabalhadores
têm vindo a ser suprimidos, numa guerra social sem quartel que reclama
urgentemente, da parte destes mesmos trabalhadores, a adopção de um programa
político revolucionário e as correspondentes formas organizativas, seja a nível
partidário, sindical ou outro. Encerrado que está o ciclo aberto com o 25 de
Abril de 1974, é preciso arregaçar as mangas e recomeçar da estaca zero, sendo
a primeira tarefa a de lutar sempre, resistindo com firmeza aos ataques do
inimigo de classe; a segunda, a de definir com clareza um programa político
capaz de unir todas as classes e camadas exploradas e oprimidas do povo
português, pondo de pé, na luta e para a luta, as formas organizativas adequadas;
e, como terceira tarefa, aplicar esse programa sem tibiezas nem hesitações.
Desta forma será possível mobilizar as massas de produtores de mais-valia sob
uma firme direcção política de burguesas,
que agora se encontram predominantemente no campo da direita e da
contra-revolução. Só assim, aliás, será possível passar de uma atitude
defensiva para uma atitude ofensiva no novo ciclo político que agora se começa
a desenhar.
Ao contrário do
que todos os oportunistas pretendem fazer crer, o que os resultados do último
acto eleitoral, realizado em 20 de Fevereiro último, demonstram não é uma
pretensa «viragem à esquerda» na sociedade portuguesa. Na verdade, o que
realmente então aconteceu foi que, sob um rótulo de esquerda, o PS logrou
conquistar a pequena-burguesia para um programa político abertamente de direita,
reeditando o «bloco central» de má memória. As recentes medidas adoptadas ou
anunciadas pelo governo do PS, ditas de «combate ao défice público»,
representam assim uma continuação, em versão mais agravada, da política dos
anteriores governos do PSD/CDS contra os trabalhadores e o povo português.
Nestas
circunstâncias, é necessário mover um combate frontal e em toda a linha àquelas
medidas e àquela política, confrontando os sindicatos e as organizações dos
trabalhadores com a urgência de isolar de imediato, sem apelo nem agravo, o
governo do PS, como o comité de negócios do grande capital que ele, na
realidade, é. É chegada a altura de o movimento de massas dos trabalhadores
portugueses abandonar a atitude defensiva que tem mantido nos últimos tempos, adoptando,
contra a paralisia e a capitulação das organizações sindicais, uma Carta Reivindicativa
de conteúdo marcadamente ofensivo, assente nos seguintes pontos fundamentais:
·
Instituição da semana de 35 horas;
·
Aumentos salariais de montante nunca
inferior à soma das taxas de inflação e do aumento da produtividade e que
consagrem uma redução progressiva do leque salarial (taxas de aumento
superiores para quem tem rendimentos mais baixos);
·
Pagamento, pelo Estado, dos salários dos
trabalhadores despedidos, até à obtenção de novo emprego com idêntica ou
superior qualificação;
·
Revogação imediata das disposições do
Código do Trabalho que retiram direitos fundamentais dos trabalhadores,
designadamente no campo da contratação colectiva, do direito à greve, dos
tempos e condições de trabalho, da progressão remuneratória e profissional, e
sua substituição por legislação laboral que promova o emprego com qualidade
para todos, que garanta a existência de salários condignos e que respeite
integralmente os direitos dos trabalhadores;
·
Promoção efectiva, com financiamento
integral pelo Estado ou pelas empresas, das actividades de formação necessárias
ao desempenho profissional dos trabalhadores;
·
Fixação do subsídio de doença para todos
os trabalhadores num montante igual ao salário líquido auferido, com eliminação
radical das situações de baixa fraudulenta;
·
Aumento imediato das pensões de reforma, para
que nenhuma delas tenha um montante inferior ao salário mínimo nacional;
·
Substituição do actual sistema de impostos por
um outro sistema que deverá ser constituído exclusivamente por um imposto
fortemente progressivo sobre o rendimento e o património e do qual seja
drasticamente eliminada qualquer possibilidade de fraude e evasão fiscal;
·
Apoio estatal às pequenas e médias
empresas, designadamente as que operam nos sectores básicos e de importância
estratégica nacional.
III
No novo ciclo
político que agora se abre, uma questão central é a «questão europeia», ou
seja, a questão de saber quais são as implicações políticas, programáticas e
organizativas que decorrem da integração de Portugal na União Europeia, ou
melhor dito, da anexação de Portugal pela UE.
A este respeito,
algumas questões de fundo devem ser claramente definidas, a saber:
1) Nas duas
últimas décadas, assistiu-se a uma alteração gradual mas substancial na
natureza e na estrutura daquilo que é hoje a União Europeia. De protectorado
norte-americano e conjunto relativamente homogéneo de países capitalistas que
entre si partilhavam um “mercado comum”, a então Comunidade Económica Europeia
transformou-se progressivamente num sistema de dominação de tipo neo-colonial,
em que um punhado de países se sobrepõe a todos os demais, com o objectivo de
submeter os respectivos povos a uma exploração capitalista sem freio e sem
limites. O recente e tão celebrado alargamento da UE a dez novos países e a
alteração da estrutura política da mesma UE, que se iniciou com a Acto Único
Europeu, de 1986, e que está a ponto de culminar com a aprovação de uma
“Constituição Europeia” que assume, com poucos disfarces, a natureza
capitalista e imperialista do “Estado europeu”, representam o consumar da
transformação referida. A partir de agora, todas as contradições próprias do
capitalismo e as rivalidades inter-imperialistas no espaço europeu
(designadamente, por um lado, entre o imperialismo norte-americano, que
continua a deter a hegemonia na Europa, e o imperialismo germânico; e, por
outro lado, entre os diversos sub imperialismos europeus) se irão agudizar
ainda mais, e os operários, os trabalhadores e os povos europeus irão
progressivamente confrontar-se, face a face, com a classe que os explora e
oprime.
2) Como Estado
burguês em potência, a UE tem uma segunda característica notável, a qual se
encontra bem espelhada no projecto de «Constituição Europeia» que agora está em
processo de ratificação pelos Estados membros, característica essa aliás que é
uma condição necessária (embora não suficiente) à viabilidade do dito «Estado
europeu» e que consiste no domínio sem partilha, por parte da classe
capitalista, desse mesmo «Estado europeu».
Até agora, a
maior parte das Constituições nacionais e dos correspondentes Estados trazem
ainda a marca da burguesia enquanto classe revolucionária (que foi e, há muito,
já não é) e «representativa» do povo no seu conjunto, o que se traduz na
consagração de vagos princípios democráticos e em certas formas de partilha do
poder entre a burguesia e as classes intermédias (e até, em certas fases de
avanço da revolução, incluindo a própria classe operária). Uma das expressões
práticas mais relevantes desta partilha de poder residia (e ainda reside) na
natureza, extensão e gestão dos chamados «serviços públicos», de que são
exemplo a educação, a saúde, a «protecção social» e o fornecimento de outros
bens e serviços de primeira necessidade. Acontece que hoje as relações
pré-capitalistas que têm sido dominantes naquelas áreas estão a ser rapidamente
substituídas por relações capitalistas, com o lucro capitalista como mola
dominante do seu funcionamento. Ora, privando-se da possibilidade de negociar o
apoio ou a neutralidade da pequena burguesia (e também da classe operária)
relativamente ao seu sistema de dominação através do pagamento de um «salário
social» em forma de «serviços públicos» gratuitos ou a baixo preço, e sem poder
continuar a oferecer como dantes a essa mesma pequena burguesia a estabilidade
e o rendimento certo dos «empregos públicos», a classe burguesa, se passa a
dispor de um Estado capitalista em estado «puro», perde ao mesmo tempo muitas
das almofadas protectoras daquele seu sistema de dominação, surgindo este agora,
em toda a sua crueza, perante os olhos das classes exploradas e oprimidas da
sociedade. A partir daqui, as fontes de legitimação do poder político da
burguesia passam a ser constituídas, quase exclusivamente, pela propaganda, pela
religião, pela tentativa de destruição sistemática do homem enquanto ser
racional e pensante e, finalmente, pela guerra.
É este afinal o
sentido da chamada «construção europeia» na fase em que actualmente se
encontra, sendo que a vida se encarregará de ir tornando essa realidade visível
a cada dia que passe. A revolução avança à medida que cria uma contra-revolução
mais forte e coesa. A Europa não deixou de ser, bem pelo contrário, uma zona
por excelência de grandes tempestades revolucionárias.
3) Enquanto que
para a burguesia a integração de Portugal na UE representa uma «partilha de
soberania» livremente consentida pelo povo português, para os trabalhadores portugueses
a referida «integração» do país na UE deverá antes ser encarada como uma
conquista da soberania popular e nacional pelo directório de grandes potências
que governa a UE, conquista efectuada com a colaboração e conivência da classe
dominante portuguesa, a qual se arrogou por isso o direito de açambarcar
directamente para os seus bolsos os «fundos comunitários» envolvidos no
negócio. Portugal ficou assim, por via daquela «integração» na UE, à uma, sem
independência e sem estrutura produtiva.
Neste quadro, a
luta pelo direito do povo português à autodeterminação e à independência
nacional terá de ser considerada como um eixo fundamental na luta dos
trabalhadores portugueses contra o capitalismo e pelo socialismo, na exacta
medida em que a dominação capitalista em Portugal se exerce através da
subordinação do país aos ditames das grandes potências imperialistas, no quadro
de organizações em que a UE assume um particular destaque.
4) Em matéria
europeia, o primeiro ajuste de contas a fazer pelos trabalhadores portugueses
tem de ser com a sua própria classe dominante, a qual deve ser responsabilizada
pela situação em que se encontra o país e, como tal, derrubada do poder
político que ocupa. Um governo democrático e popular em Portugal exigirá uma
renegociação total dos termos da chamada «integração» do país na UE e
mobilizará o povo português, apelando à solidariedade dos restantes povos
europeus, para enfrentar as burguesias europeias e para fazer face às
consequências de uma eventual ruptura entre Portugal e a UE.
5) A questão da
solidariedade entre os povos dos países que integram a UE deverá ser encarada
com base numa correcta abordagem da «questão nacional» em cada um desses
países. Assim, enquanto que no plano interno os Estados são-no de uma classe, que
os utiliza como instrumento de opressão sobre outra classe, no plano externo os
Estados representam os povos, e são estes que são os sujeitos principais nas
relações internacionais. Neste último plano, o externo, os povos e as nações
exercem a sua autodeterminação através dos Estados nacionais, sendo que, nos
casos em que as relações entre os países não são baseadas numa autonomia e numa
independência reais de cada um dos lados, a responsabilidade histórica por uma
tal situação não é dos “Estados” mas sim dos povos envolvidos, ou seja, os
povos oprimidos lutam pela sua soberania e aos povos opressores cabe lutar pelo
direito dos povos por si oprimidos a disporem de si próprios, no quadro do
princípio de que “um povo que oprime outro(s) povo(s) não pode ser livre”. Colocada
fora desta perspectiva, a «solidariedade europeia» será uma palavra vã e servirá
sempre e apenas para reforçar um dos campos imperialistas que se disputam, e
nunca para alcançar objectivos de emancipação e de progresso.
6) Sendo, como atrás
se disse, um eixo fundamental no combate mais geral dos trabalhadores
portugueses pelo socialismo e pelo comunismo, e havendo aquele de ser dirigido
por uma linha política revolucionária para ser consequente e vitorioso, a luta
do povo português pela independência nacional não deixa por isso de ser
burguesa no seu conteúdo, na medida em que visa defender sobretudo interesses
nacionais e apenas se lhe exige que respeite igual direito por parte de outros
povos e nações. A classe operária não é nacionalista, é internacionalista, e a
questão da viabilidade de construir o socialismo num só país tem de ser
firmemente colocada no campo da táctica política e não no campo da estratégia,
porque o objectivo último dos comunistas é o de construir a sociedade comunista
a nível global mundial.
Na verdade, o
«espaço nacional» só é um espaço privilegiado de luta para o proletariado porque
é nessa base que está organizado o poder político, económico e ideológico da
burguesia. Assim, a luta do proletariado é, simultaneamente, uma luta pela
conquista do poder político no «espaço nacional» e pela supressão desse mesmo
«espaço nacional». Nunca se pode iludir o facto de que a matriz genética dos
«espaços nacionais» modernos é a propriedade privada dos meios de produção e a
liberdade de comércio burguesa e capitalista. É por isso, aliás, que toda e
qualquer forma de organização «supranacional» do poder político da burguesia
representa a criação em potência de um novo «espaço nacional», o qual acaba por
se sobrepor, condicionar ou absorver outros «espaços nacionais», sempre com
hegemonia das nações onde se concentra (e vai concentrar ainda mais no decorrer
do processo) o poder político, económico e cultural da burguesia. Nesta medida,
o imperialismo é um processo de criação de novos «espaços nacionais», no
interior dos quais a contradição principal é entre o proletariado e a
burguesia, mas no interior do qual também existem agudas contradições entre
nações oprimidas e nações opressoras. Na realidade contraditória que a
caracteriza, a UE corporiza um desses processos imperialistas de criação de um
novo «espaço nacional», o qual se traduziu já na destruição parcial dos
múltiplos «espaços nacionais» que a integram e na concentração do poder
político, económico e cultural num punhado de nações que se disputam pela
supremacia nesse mesmo espaço, reduzindo as demais a uma situação de
dependência e opressão.
IV
A dominação de classe burguesa em
Portugal exerce-se hoje a dois níveis: 1) através de um «Estado europeu», que
se vai sobrepondo e absorvendo as funções do «Estado nacional»; 2) através de um
«Estado nacional», cujas instituições se vão progressivamente constituindo como
subsidiárias das instituições da União Europeia.
Uma manifestação clara desta realidade
podemos encontrá-la na semelhança extrema que existe entre os programas de
governo no quadro nacional e as políticas definidas no quadro da UE. Na
verdade, quem se der ao trabalho de ler o programa de governo do PS verificará
que o mesmo se limita a ser, nos seus pontos fundamentais, uma transposição e
uma adaptação das orientações, directivas e propostas emanadas dos diversos
órgãos da UE, designadamente as contidas nos documentos da Comissão Europeia,
relativos à aplicação da chamada «estratégia de Lisboa».
Assim, e na situação de crise económica
profunda e de relativo impasse na luta de classes, como é a que existe hoje, o
governo da burguesia em Portugal deverá simultaneamente ser um executor fiel
das «políticas europeias» e ser capaz de isolar o movimento operário dos seus potenciais
aliados, ou, dito de outro modo, que ao mesmo tempo execute a política do
grande capital e que o faça em nome do «interesse geral» e, em particular, dos
interesses da pequena burguesia.
Hoje esta tarefa afigura-se
particularmente difícil por parte dos governos da burguesia, devido à profunda
crise económica do país, à sua dependência cada vez mais acentuada no seio da
UE, onde Portugal ocupa uma posição cada vez mais periférica e atrasada, e
ainda devido às próprias políticas da UE, no quadro da referida «estratégia de
Lisboa», as quais consistem numa política extrema de concentração capitalista
em alguns «pólos de excelência» à escala da UE e em todos os domínios de
actividade, designadamente nos de mais elevado peso tecnológico e em muitas das
áreas tradicionalmente abrangidas pelo chamado «Estado social».
Sucede que uma
das consequências relevantes da «integração» de Portugal na UE, nos termos em
que ela hoje existe, foi a de promover uma completa identidade programática
entre os partidos que se alternam no governo, PS e PSD, pelo que as condições
são hoje mais favoráveis do que nunca para que se gere uma compreensão clara de
que os problemas do país não residem neste ou naquele governo, mas residem sim
no sistema de que os sucessivos governos são aplicados gestores. Assim, sem
deixar de formular programas e objectivos imediatos de luta, os comunistas têm
de redobrar a sua acção de agitação e propaganda sobre a necessidade de
derrubar o capitalismo e construir o socialismo.
De facto, o que
está em causa no combate político actual não é «derrotar o neoliberalismo», mas
sim derrubar o capitalismo, não é substituir o «capitalismo selvagem» por um
qualquer e pretenso «capitalismo de rosto humano», mas é sim erradicar o
capitalismo sob todas as suas formas. À medida que a luta de classes se for
agudizando, vai aparecer sucessivamente mais claro que o papel histórico de
partidos como o PCP ou o BE é o de criar ilusões nas massas trabalhadoras sobre
a possibilidade de «reformar» o capitalismo. Na actual situação política em
Portugal, essa política oportunista materializa-se, entre outras coisas, na
tentativa de fazer crer que o PS é um partido de esquerda e que, como tal, é
também possível «reformar» o PS, bastando para tal fazer sobre esse partido uma
adequada «pressão de esquerda». Ora, a exigência que hoje se coloca ao
movimento das massas trabalhadoras não é a de «reformar o PS», mas é sim a de
isolá-lo como um partido cuja função histórica é hoje, mais do que nunca, a de
fazer os fretes que lhe são encomendados pelo grande capital.
Uma das tarefas
fundamentais dum partido comunista no momento actual é, deste modo, a de
confrontar firmemente os trabalhadores portugueses com a necessidade de definir
um caminho alternativo para o país, baseado no controlo operário e popular
sobre o que produzir, como produzir e como aplicar e distribuir esse produto. Assim,
e para além da Carta Reivindicativa dos trabalhadores portugueses antes
enunciada, o PCTP/MRPP deve avançar com o seguinte programa mínimo para a
constituição de um governo democrático e popular:
·
Estabelecimento de um plano estratégico
de desenvolvimento económico nacional que impulsione e salvaguarde todos os
sectores de produção, designadamente a indústria, a agricultura, as pescas e a
exploração mineira, e que privilegie a aplicação criteriosa mas generalizada
dos avanços tecnológicos mais importantes em cada área e sector de actividade;
·
Controlo, pelas organizações dos
trabalhadores, das condições de produção e distribuição da riqueza, a nível
nacional;
·
Aposta decisiva e prioritária na educação
e na formação profissional e forte apoio público às actividades de investigação
científica e de desenvolvimento tecnológico;
·
Apoio estatal às pequenas e médias
empresas, designadamente as que operam nos sectores básicos e de importância
estratégica nacional;
·
Trabalho obrigatório para todos os que
estejam em condições e em idade de o fazer, com respeito pelas qualificações,
pela experiência profissional e pela vida familiar de cada um;
·
Administração e fornecimento, por
entidades públicas, dos serviços essenciais de que a população necessita, tais
como a educação, a saúde, a assistência à terceira idade e aos cidadãos com
deficiência, os transportes, o abastecimento de água e energia, o saneamento e
o tratamento de resíduos;
·
Financiamento público daqueles serviços
essenciais, numa parcela social mínima calculada a partir das necessidades de
cada indivíduo e do respectivo agregado familiar;
·
Supervisão e controlo, pelas autoridades
nacionais, do funcionamento do sistema financeiro e bancário, como meio de
salvaguardar a independência financeira do país e de assegurar o acesso a um
crédito barato por parte dos cidadãos e das empresas;
·
Recusa da regionalização do país e
promoção de níveis condignos de qualidade de vida em qualquer ponto do
território nacional e sem distinção entre o continente e as regiões insulares
autónomas, e entre zonas urbanas e zonas rurais;
·
Prosseguimento de uma política externa
independente e autónoma, que garanta o estabelecimento de relações com todas as
nações e países do mundo numa base de cooperação, de igualdade e de respeito
mútuo; que assegure a participação de Portugal em todas as organizações
internacionais que promovam o desenvolvimento, o progresso e o entendimento
entre os povos e nações; que diversifique as relações comerciais do país,
actualmente concentradas quase exclusivamente no espaço da União Europeia; que
privilegie as relações com os países de língua oficial portuguesa; e que recuse
a participação de Portugal em quaisquer blocos militares ou em quaisquer
operações armadas de natureza imperialista.
Na situação
política actual do país, é indispensável saber articular os planos de luta,
designadamente o «plano nacional» e o «plano europeu». Assim, a luta pela
constituição de um bloco social capaz de lutar pela aplicação do programa atrás
enunciado, é inseparável da luta a desenvolver no quadro europeu e da aliança
internacionalista dos trabalhadores portugueses com os demais trabalhadores
europeus.
No quadro
europeu, o objectivo da luta das massas trabalhadoras não pode ser, como
pretendem todos os oportunistas, o de «reformar» ou «democratizar» a UE, uma
vez que todo o processo de «construção europeia», na sua fase actual, obedece a
uma lógica de hierarquização crescente entre os Estados-membros e de competição
imperialista cada vez mais acesa à escala global, e também porque o dito
processo de «construção europeia» pressupõe uma fortíssima restrição da
democracia no quadro de cada país, sobretudo nos mais dependentes. Assim, todo
o edifício político, institucional e jurídico em que assenta a UE deve ser
demolido de alto a baixo. Só faz efectivamente sentido falar em luta pela
democracia no contexto da actual UE se forem colocados na ordem do dia dois
objectivos fundamentais: o primeiro, é a reposição do princípio «um país, um
voto» como único critério de decisão nos órgãos intergovernamentais e
interministeriais da dita UE; o segundo, é a afirmação do primado das
constituições nacionais sobre o direito comunitário. Ou seja, para que uma
organização supranacional europeia se possa constituir como um terreno de luta
pela democracia, ela tem de começar por ser uma associação livre de povos
soberanos, ou, dito de outro modo, a «questão nacional» tem de ser
correctamente resolvida no quadro europeu.
Sucede que uma
correcta resolução da «questão nacional» na Europa tem de passar, e só pode
passar pela mobilização e pela organização dos trabalhadores europeus na luta
por objectivos comuns, os quais, numa primeira fase, terão de se revestir de um
conteúdo eminentemente democrático. Deste modo, alguns dos pontos fundamentais
que deverão constar de um programa imediato de luta dos trabalhadores europeus,
são os seguintes:
·
Recusa de quaisquer regras e instrumentos
jurídicos que signifiquem a confiscação, pela UE, da soberania dos povos e
nações que integram a mesma UE;
·
Eliminação, no quadro da UE, de todas as
regras de política económica, monetária e orçamental que constituam um
obstáculo ao desenvolvimento dos países mais pobres da mesma UE, e reforço dos
mecanismos de apoio a esse mesmo desenvolvimento;
·
Semana de 35 horas para todos os
trabalhadores europeus;
·
Uniformização da legislação laboral e dos
sistemas de protecção social a nível europeu, com inclusão das normas,
existentes no universo dos países da UE, que sejam mais favoráveis aos
trabalhadores e às populações carenciadas;
·
Fixação de um salário mínimo europeu,
tendo por base o valor de um cabaz de bens e serviços essenciais, cujo montante
deverá ser estabelecido de acordo com o preço médio europeu para cada um
daqueles bens e serviços;
·
Salário igual para trabalho igual, em
todos os países da UE;
·
Controlo, pelas organizações dos
trabalhadores, das condições de produção, distribuição e consumo a nível
europeu.
·
Recusa do estabelecimento de uma «Política
de Defesa e Segurança Comum» sob qualquer forma e combate activo ao
envolvimento da UE e de qualquer dos seus membros em guerras de agressão contra
outros povos e nações.