Tribunal Mundial sobre o Iraque – Audiência Portuguesa –
18-19-20 Março 2005 – Lisboa
Dr. António Garcia Pereira, advogado
O completo saque dos recursos iraquianos foi desde o
início um objectivo essencial da agressão militar ao Iraque.
Sabe-se hoje que a parte principal dos planos desse saque
já estavam prontos largo tempo antes da invasão (tal como sucedeu com a fixação
do contrato de 250 milhões de dólares, contrato esse pretensamente destinado a
implementar e operar a reconstrução económica do Iraque e de que foi
beneficiária a "Bearing Point, Inc") e visavam a completa
privatização de todos, sem excepção, os sectores da actividade económica e
serviços públicos, abrindo-os às grandes empresas, sobretudo as maiores
multinacionais americanas.
A lógica dessa política de saque - que foi ao ponto de
manter a lei de Sadam Hussein que proibia as organizações de trabalhadores e de
não só permitir como implicar despedimentos em massa, num país em que pelo
menos 70% da mão-de-obra estava
desempregada no imediato pós-guerra ! - significa designadamente que os grandes
empórios capitalistas - que já enriqueceram brutalmente nos pós-guerra e com os
chamados "contratos de reconstrução" - podem ser proprietários de
todo o tipo de empresas e serviços, exportar por completo os seus lucros,
tornados ainda mais fabulosos por impostos propositadamente baixos e não ter de
assegurar quaisquer serviços públicos ou a contratação de qualquer iraquiano.
Instrumentos fundamentais dessa política de saque foram
as "Ordens" de Paul Bremer, Administrador da CPA (a chamada
"Autoridade Provisória de Coligação") que, respectivamente, baixaram
os impostos sobre as empresas de 40% para 15%, permitiram a exportação de 100%
dos lucros para fora do Iraque, possibilitaram a assinatura de contratos com
uma vigência pelo larguíssimo período de 40 anos, impuseram tratamento
"nacional" para as companhias estrangeiras e estabeleceram a abertura
dos bancos iraquianos ao controle dos grandes bancos estrangeiros.
O Governo Americano, do mesmo passo que proibiu que em
quaisquer contratos ou negócios pudessem participar empresas francesas, alemãs,
russas, canadianas e de outros países que recusaram fazer parte da Coligação
militar opressora, e que reservou os maiores negócios para as suas próprias
grandes multinacionais (como é o caso da CACI, um negócio com 60 mil milhões de
dólares, da WBR, com 11 mil milhões e da Bechtel, que aliás já tem um passado
ensanguentado na Bolívia, com 3 mil milhões de dólares), propiciou também que
empresas daqueles países (europeus e não europeus) que apoiaram a agressão ao
Iraque tivessem igualmente acesso ao saque.
Assim, e por um lado, o Banco americano J.P. Morgan
lidera um consórcio internacional de treze Bancos (de outros tantos países), do
qual faz significativamente parte o BCP, de Portugal, bem como o Bank
Millenium, da Polónia, e que é detido a 50% pelo BCP.
Por outro lado, e embora tenha sido recomendada a máxima
discrição e imposta uma verdadeira "cortina de silêncio" -
provavelmente para evitar o escândalo da visita aos Estados Unidos de Aznar e
de responsáveis das principais multinacionais e empresas espanholas, desde o
BBVA à Repsol e à Telefónica, para discutir as condições e margens de lucro na
espoliação dos recursos do Iraque - sabe-se que, correspondendo às
"facilidades" publicitadas pelo Governo de Durão Barroso, 25 empresas
portuguesas logo manifestaram interesse em participar e beneficiar das
"oportunidades de negócios" abertas com a agressão e ocupação do
Iraque, sendo tais empresas, pelo menos, do sector petroquímico, farmacêutico,
têxtil, químico e da construção civil, e tendo vindo logo depois a conhecer-se
(por informações do próprio Ministério da Economia) que elas eram, para além do
próprio BCP - que cobriria os riscos financeiros destas "operações" -
também a Efacec (electricidade e electrónica), a Somague (construção civil), a
Secil (cimentos) e a Antral Cipan (indústria farmacêutica) e mais tarde igualmente
a Mota-Engel, a Teixeira Duarte e a Gomes da Costa, estas todas da área da
construção civil.
Ademais, o Governo português também já fez saber que só
apoiaria aquelas empresas interessadas em "desenvolver projectos" que
se pretendessem candidatar a grandes empreitadas e não a pequenas
sub-empreitadas, deixando assim igualmente claro que, devido às exigências do
contratante geral
norte-americano, tais "oportunidades de negócio" apenas se
destinavam a grandes empresas e que merecessem a aprovação do próprio Governo.
Calcula-se que o referido consórcio que constituirá o
chamado "Banco Comercial do Iraque", com um capital social inicial de
100 milhões de dólares, terá um volume de negócios da ordem dos verdadeiramente
extraordinários mil milhões de dólares por mês. Por outro lado, são conhecidos
os valores absolutamente astronómicos dos negócios em perspectiva sob a
denominação eufemística de "reconstrução do país". Por fim, é
igualmente sabido que só os aliados - e muito em particular os aliados
incondicionais, como foi o caso do Governo de Durão Barroso - da guerra de
agressão tiveram este tipo de "oportunidades".
O que tudo mostra claramente que se trata aqui - como
sucedeu com o Reino Unido, a Itália ou a Espanha - de, como
"recompensa" do apoio à guerra de agressão e ocupação do Iraque,
permitir agora o saque de uma parcela dos despojos, tendo o ainda Ministro dos
Negócios Estrangeiros Martins da Cruz e a Secretária de Estado Adjunta
norte-americana acabado de reunir em Lisboa no passado dia 27 de Fevereiro com
o assumido objectivo de discutir esse mesmo assunto da "reconstrução"
da economia daquele país também por grandes empresas portuguesas, e das
respectivas condições.